3 tradições portuguesas que lutam para não desaparecer
Técnicas aprendidas desde cedo, ferramentas específicas e conhecimentos que passam de geração em geração podem levar anos a dominar. Em Portugal, algumas destas tradições enfrentam hoje um problema simples: há cada vez menos pessoas a dar-lhes continuidade.
A UNESCO tem atualmente três manifestações portuguesas inscritas na Lista do Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente. São a louça preta de Bisalhães, o fabrico de chocalhos e a construção tradicional dos moliceiros da região de Aveiro. Três ofícios muito diferentes, mas com algo em comum: a necessidade de encontrar quem os continue. Conhecê-los é também uma forma de perceber melhor os lugares onde nasceram e o trabalho que existe por trás de objetos e paisagens que muitas vezes damos como garantidos.
A louça preta de Bisalhães


Em Bisalhães, no concelho de Vila Real, a cerâmica continua a ser trabalhada de forma artesanal, seguindo uma técnica que dá às peças a sua característica cor negra. O barro é preparado e moldado à mão, antes de ser decorado com diferentes ferramentas e submetido a uma cozedura que determina o aspecto final da louça.
O resultado são peças de formas e padrões muito próprios, que fazem parte da identidade da região transmontana. A diminuição do número de artesãos, o envelhecimento dos mestres e o reduzido interesse das gerações mais novas em aprender a técnica colocam em causa a transmissão deste conhecimento.
A louça preta de Bisalhães foi inscrita pela UNESCO na lista de salvaguarda urgente em 2016. Dez anos depois, a revisão da sua inscrição voltou a reconhecer a existência de riscos para a continuidade da tradição, ao mesmo tempo que estão a ser desenvolvidas medidas para apoiar a sua salvaguarda.
Os chocalhos feitos à mão

No Alentejo, particularmente em Alcáçovas, ainda existem artesãos que fazem chocalhos seguindo técnicas tradicionais. À primeira vista, trata-se de um objeto simples, associado sobretudo aos animais e à atividade pastoril. A sua produção, porém, envolve um conhecimento especializado, desde o trabalho do metal até à afinação do som.
Cada chocalho precisa de ser moldado, cozido e afinado para produzir o som pretendido. É precisamente este saber, transmitido através da prática e da aprendizagem junto dos mestres, que está em risco.
O fabrico de chocalhos entrou na lista da UNESCO em 2015, numa altura em que existiam apenas algumas oficinas e um número reduzido de fabricantes, muitos deles já com idade avançada. A transformação das actividades agrícolas e pastoris e a produção industrial contribuíram para reduzir a procura pelos chocalhos artesanais.
Nos últimos anos têm sido desenvolvidas iniciativas para dar maior visibilidade ao ofício e melhorar a sua sustentabilidade económica. Ainda assim, garantir que os conhecimentos passam para novos artesãos continua a ser uma das principais questões para o futuro desta tradição alentejana.
A construção dos moliceiros da Ria de Aveiro

Os moliceiros fazem parte da paisagem da Ria de Aveiro e são facilmente reconhecidos pelas suas proas coloridas. Menos conhecido é todo o saber necessário para construir estas embarcações segundo os métodos tradicionais.
A construção é feita em madeira de pinho e recorre a técnicas transmitidas entre mestres, incluindo a utilização do chamado pau-de-pontos, uma ferramenta tradicional que ajuda a definir as medidas do barco. Depois de construídos, os moliceiros recebem os conhecidos painéis pintados, com representações que podem ser humorísticas, religiosas ou relacionadas com a cultura popular.
Em 2025, a construção tradicional dos moliceiros da região de Aveiro foi inscrita pela UNESCO na Lista do Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente. O número de mestres é particularmente reduzido: existem actualmente apenas cinco construtores, quatro dos quais têm mais de 60 anos, além de apenas um mestre pintor.
Foram criados cursos e outras iniciativas para tentar transmitir estes conhecimentos, mas a formação de novos profissionais continua a ser um desafio.
Conhecer também é uma forma de preservar
Não é preciso transformar todas as tradições numa atração turística para as manter vivas, mas é difícil imaginar a continuidade de um ofício quando deixa de existir procura, curiosidade ou reconhecimento à sua volta.
Escolher experiências ligadas às comunidades locais, visitar oficinas e espaços de produção ou comprar diretamente a artesãos são algumas formas de contribuir para que estes saberes continuem a fazer parte da vida das regiões onde nasceram. Cada vez que escolhemos conhecer, valorizar e consumir aquilo que é feito localmente, ajudamos a criar procura para que estes conhecimentos continuem a fazer sentido para quem os aprende e pratica.

