As feiras onde Portugal compra em segunda mão

Num tempo em que quase tudo é novo, rápido e descartável, estas feiras continuam a existir porque oferecem o contrário: objetos com marcas de uso, histórias incompletas e utilidade indefinida.

@Feira da Ladra, Câmara Municipal de Lisboa

Comprar em feiras de antiguidades e velharias nunca foi apenas um gosto pelo passado. Em Portugal, estas feiras sempre funcionaram como lugares de circulação real, onde os objetos mudam de mãos, de casas e de significado. Hoje, continuam a existir não por nostalgia, mas porque oferecem algo raro: tempo, surpresa e contacto direto com a cidade.

Em Lisboa, a mais conhecida continua a ser a Feira da Ladra. Acontece duas vezes por semana, no Campo de Santa Clara, e mantém uma energia própria que resiste à exposição turística. Há bancas que se repetem há décadas e outras que aparecem apenas uma vez. Vêem-se móveis, livros, discos, ferramentas, objetos religiosos, peças militares, roupa antiga e coisas difíceis de classificar. Não se vai à Feira da Ladra com uma lista. Vai-se para andar, observar e, às vezes, encontrar algo inesperado. É uma feira que se vive mais do que se consome.

No Porto, a Feira da Vandoma cumpre um papel semelhante, mas com um caráter diferente. Realiza-se aos sábados e mantém uma relação muito próxima com a cidade e com quem lá vende. Durante anos ocupou a zona da Avenida 25 de Abril e hoje acontece no antigo recinto do Feira Romano, junto à estação de Campanhã. É uma feira menos encenada, mais direta, onde se vê o lado funcional da segunda mão. Ferramentas usadas, mobiliário pesado, peças de oficina e objetos domésticos convivem com discos, livros e antiguidades ocasionais. A negociação faz parte do ritual e o ambiente é mais de mercado do que de passeio.

Mais a sul, longe dos grandes centros urbanos, a Feira de Velharias de Estoi oferece outra escala e outro ritmo. Realiza-se mensalmente e atrai tanto moradores como visitantes que passam pelo Algarve fora da época alta. Aqui, o tempo abranda sem esforço. As bancas são menos densas, há espaço para conversa e muitos dos objetos vêm diretamente de casas da região. Cerâmica popular, utensílios agrícolas, móveis simples e peças decorativas contam uma história mais rural e menos filtrada. É uma feira onde se percebe de onde vêm as coisas e porque ainda fazem sentido.

O que liga estas feiras não é o tipo de objetos, mas a forma como se inserem no quotidiano. Nenhuma promete curadoria nem coerência estética. O valor constrói-se na troca, na explicação do vendedor, no uso anterior do objeto e na imaginação de quem compra. São espaços onde não se entra com pressa e onde sair sem comprar nada é perfeitamente aceitável.

Confira todas as opções de alojamento em Portugal aqui.

Newsletter

A Hotéis de Campo publica semanalmente uma newsletter com todos os artigos relacionados com sugestões de viagens em Portugal.

Email Marketing by E-goi