Cinemateca dedica ciclo a mulheres que ficaram fora da história do cinema português

A Cinemateca Portuguesa volta-se para um capítulo menos visível da história do cinema nacional. O ciclo “Pioneiras do Cinema Português” reúne, ao longo de três semanas, um conjunto de sessões dedicadas a mulheres que participaram ativamente na produção cinematográfica em Portugal, muito antes de esse contributo ser reconhecido.

Ao todo, estão previstas 18 exibições, distribuídas até 30 de maio, que percorrem várias décadas de produção, desde os primeiros anos do cinema no país até ao início dos anos 60. O programa reúne filmes raros, obras recuperadas e algumas apresentações menos conhecidas, propondo um olhar abrangente sobre diferentes formas de fazer cinema.

Mais do que destacar nomes, a iniciativa procura corrigir um vazio. A presença feminina nunca esteve ausente da história do cinema português, mas muitas destas profissionais ficaram fora dos créditos, dos arquivos e da memória mais acessível. Este ciclo aproxima essas trajetórias do público, cruzando diferentes áreas e formatos.

A programação não se limita à ficção. Além de longas‑metragens, inclui documentários, filmes científicos, registos etnográficos, produções institucionais e arquivos pessoais. O resultado é um retrato alargado de um período em que o cinema servia múltiplos propósitos, e onde as mulheres encontraram diferentes formas de participação.

Entre os nomes em destaque está Bárbara Virgínia, responsável por Três Dias Sem Deus (1949), considerada a primeira mulher em Portugal a realizar uma longa‑metragem de ficção exibida comercialmente. Tinha pouco mais de vinte anos quando o filme estreou, tornando-se uma referência incontornável neste contexto.

Outra figura recuperada é Virgínia de Castro e Almeida, que, para além da sua carreira literária, desenvolveu trabalho como produtora, argumentista e realizadora. O ciclo inclui Os Olhos da Alma, realizado em 1923 em colaboração com Roger Lion, num momento ainda inicial da cinematografia nacional.

O programa passa também por Amélia Borges Rodrigues, autora de vários documentários de paisagem, e por Vera Wang Franco Nogueira, cujo trabalho regista momentos privados e sociais associados ao contexto político da época. Já Raquel Soeiro de Brito, que utilizava o cinema como ferramenta de investigação geográfica, estará presente numa das sessões para comentar parte da sua obra.

A estas figuras juntam‑se filmes mais recentes, que revisitam estes percursos e contribuem para a sua reinterpretação. Documentários contemporâneos estabelecem pontes entre diferentes gerações, ampliando o alcance do ciclo para além da recuperação histórica.

A cronologia da programação estende‑se aproximadamente entre o final do século XIX, quando o cinema chegou a Portugal, e o início dos anos 60, período associado a uma mudança geracional no cinema nacional. Foi também nessa fase que o acesso a formação técnica e artística começou a abrir espaço a uma presença feminina mais visível em áreas como a realização, a montagem e a produção.

Os bilhetes estão disponíveis na bilheteira da Cinemateca, com preços a partir de valores acessíveis, permitindo um acesso alargado a este conjunto de sessões.

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