Quando o inverno se expulsa à máscara: o Entrudo mais antigo de Portugal)

Muito antes do Carnaval ganhar penas, samba e confetes, em Portugal o Entrudo fazia-se de ruído, disfarce e transgressão.

Carnaval de Podence

No Norte do país e em algumas aldeias serranas do Centro, esta celebração ancestral continua a cumprir a sua função original: marcar o fim do inverno, inverter papéis sociais e libertar a comunidade para um novo ciclo. Entre máscaras diabólicas, chocalhos e rituais coletivos, o Entrudo português é hoje uma das expressões culturais mais antigas e menos domesticadas da Europa.

A palavra “Entrudo” vem do latim introitus, entrada, e refere-se precisamente à transição para um novo tempo. A sua origem perde-se muito antes do cristianismo, ligada a rituais pagãos de fertilidade, purificação e renovação, onde o excesso, o disfarce e a desordem tinham um papel essencial. Em várias regiões do país, esta herança nunca desapareceu. Resistiu, adaptou-se e, em alguns casos, foi recuperada pelas próprias comunidades como forma de preservar a memória coletiva.

No Nordeste Transmontano, o Entrudo mantém a sua expressão mais visceral. Em Podence, os Caretos continuam a sair à rua com fatos de franjas vermelhas, verdes e amarelas, máscaras de lata ou couro e chocalhos presos à cintura. Correm, saltam, fazem barulho e “chocalham” simbolicamente as raparigas, num ritual que mistura provocação, energia vital e catarse social. Esta tradição, reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, tornou-se o rosto mais conhecido do Entrudo português, mas está longe de ser um caso isolado.

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Por toda a região de Trás-os-Montes, sobrevivem variantes igualmente antigas, como os Caretos de Vinhais ou o Chocalheiro de Ousilhão, onde o som dos sinos e a presença da máscara assumem um papel quase ritual na expulsão simbólica do inverno. Em Lazarim, o Entrudo ganha contornos satíricos através de máscaras de madeira esculpidas à mão, representando figuras grotescas que encarnam críticas sociais, políticas e morais. Aqui, a máscara não é apenas disfarce, é comentário.

Mais a sul, na Serra da Lousã, o Entrudo das Aldeias do Xisto de Góis revela uma faceta diferente, mas igualmente arcaica. Conhecido como a “Corrida do Entrudo”, este ritual baseia-se na circulação dos foliões mascarados entre aldeias, declamando quadras jocosas, pregando partidas e subvertendo as regras do quotidiano. As máscaras, muitas vezes feitas de cortiça, trapos ou materiais reaproveitados, refletem uma cultura de engenho e necessidade, onde a criatividade substituía a falta de recursos. O anonimato permitia dizer o que durante o resto do ano ficava por dizer, num exercício coletivo de crítica e libertação.

Apesar das diferenças formais, todas estas manifestações partilham o mesmo núcleo simbólico. O Entrudo é ruído, excesso, inversão e comunhão. É um momento em que o corpo participa, a aldeia inteira é palco e a tradição não se observa, vive-se. Não há espectadores passivos, porque todos fazem parte do ritual, mesmo quem é alvo da brincadeira.

Hoje, num contexto em que muitos festivais se tornaram espetáculos para consumo externo, o Entrudo tradicional resiste como uma celebração profundamente enraizada na comunidade. Em vez de ser suavizado, é assumido na sua crueza e complexidade. Talvez por isso continue a fascinar tanto quem o vive desde criança como quem o descobre pela primeira vez.

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